O dia não era como os demais. Talvez aquele dia fosse único perante os demais dias do ano. E ele me inspirava a ser o mesmo, a ser o outro, a ser além. Ir para além de mim mesmo, além das minhas aflições, além da agonia que consome a minha essência e tortura a minha existência.
Mas eu falhava. E falhava com um vigor insuportável, como se minha vida dependesse do meu fracasso em tentar ultrapassá-la para além de suas razões, para além de seus limites. E ao falar de limites da vida, não falo dos limites da morte, porque essa definitivamente não me convém. A minha noção de limite é ilimitadamente grotesca, risível aos olhos dos cartógrafos e dispensável do invólucro da modernidade.
E no meu fracasso de tentar me desvencilhar de mim mesmo, de transcender para além do que sou para tentar ser mais além, é que percebi que a minha luta contra os meus limites são as minhas próprias limitações. É como a metáfora da linha do horizonte, quando mais eu buscava vencê-la, ultrapassá-la, mas ela se portava soberana sobre mim.
E aquilo me destruía.
Afinal, eu não posso dizer quem ou o que sou. Só posso concluir que não sou nada além da própria mediocridade de nada ser e de nada suportar.
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Eis a caixa da vida. Quem aqui escreve algo, mostra que não está morto...