quarta-feira, agosto 28, 2013

Lamentos de um não ser

Correr de mim mesmo. Era tudo o que eu poderia fazer. Era tudo o que eu poderia tentar. A paisagem daquela manhã, tênue e depressiva, inspirava uma fortuita procura pela transcendência. Era um dia frio, algo incomum para uma zona intertropical, que costuma se marcar pela baixa umidade e pelo sol esturricado de agosto. O sol de agosto não estava mais lá, não com a mesma força dos anos anteriores. O vento forte, misturado ao frio intenso, fazia com que as brisas entrassem como uma faca afiada em minha pele, como se o dia, o tempo e as coisas não me quisessem ali.

O dia não era como os demais. Talvez aquele dia fosse único perante os demais dias do ano. E ele me inspirava a ser o mesmo, a ser o outro, a ser além. Ir para além de mim mesmo, além das minhas aflições, além da agonia que consome a minha essência e tortura a minha existência.

Mas eu falhava. E falhava com um vigor insuportável, como se minha vida dependesse do meu fracasso em tentar ultrapassá-la para além de suas razões, para além de seus limites. E ao falar de limites da vida, não falo dos limites da morte, porque essa definitivamente não me convém. A minha noção de limite é ilimitadamente grotesca, risível aos olhos dos cartógrafos e dispensável do invólucro da modernidade.

E no meu fracasso de tentar me desvencilhar de mim mesmo, de transcender para além do que sou para tentar ser mais além, é que percebi que a minha luta contra os meus limites são as minhas próprias limitações. É como a metáfora da linha do horizonte, quando mais eu buscava vencê-la, ultrapassá-la, mas ela se portava soberana sobre mim.

E aquilo me destruía.

Afinal, eu não posso dizer quem ou o que sou. Só posso concluir que não sou nada além da própria mediocridade de nada ser e de nada suportar.

0 imaginações a respeito:

Postar um comentário

Eis a caixa da vida. Quem aqui escreve algo, mostra que não está morto...


blog criado em 23 de Julho de 2009

Labels