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terça-feira, maio 29, 2012

Compras

Olá, senhor.
Boa tarde, em que posso ajudá-lo?
Tem uma mochila aí? Preciso de uma que seja nova e que caiba muitas coisas.
Oh, tem essa aqui. Guarda amores, guarda vislumbres...
Guarda medos, traumas e terrores?
Não, essas aí estão em falta.
Hum... O senhor tem um estojo de canetas para escrever metáforas vivas?
Sim, sim. Está aqui.
Quanto fica?
Somando tudo dá 230 dobrões.
Nossa, só tenho 205.
205 é o valor só da mochila.
Então quero só a mochila então.
Certo, aqui está.
Ah! O senhor tem aí uma vida nova.
Ora, claro que não. Para que queres uma vida nova, a sua não lhe serve?
Não, já está muito gasta.
Oh! Certo, volte na semana que vem. Talvez tenha chegado algo novo.
Só poderei no próximo mês, quando tiver mais dobrões.
Tudo bem. Se chegar, reservo para você.
Ok, então. Fico agradecido. Até mais.
Até breve, volte sempre.

terça-feira, dezembro 14, 2010

O Elogio da Fronteira

Ele parou, olhou para um lado até o fim do horizonte, olhou para o outro até onde a vista alcançava, esperou e refletiu. Depois, repetiu esse exercício algumas vezes até que, de repente, sem hesitar (após tanto hesitar), obteve êxito!

Atravessou a rua.

Como se houvesse algo no outro lado, ele atravessou. Porque atravessou? Talvez porque o outro lado fosse mais alto e que, do lado de cá, não dê para ver nada.

Ele sumiu.

Não ficou parado na beirada da calçada, mas continuou a seguir o caminho do outro lado da rua. Mas não consigo vê-lo mais, pois não atravessei a rua como ele.

O outro lado era alto demais para mim.

Muitas pessoas do lado de cá analisaram a situação. Alguns corroboravam com a hipótese de que algo que apenas ele poderia ouvir o chamava incessantemente, pois, segundo os defensores dessa idéia, não havia por que ele se arriscar em atravessar aquela rua sem um sentido lógico para isso. Outros afirmavam que ele fugia do lado de cá, pois algo ainda desconhecido por nós o ameaçava.

Confesso que simpatizo muito com a segunda idéia. Mas prefiro acreditar em uma terceira objeção: a de que nós não estamos do lado mais baixo, e sim do lado mais alto e que tudo o que aconteceu foi um tropeço e uma queda para o outro lado da rua.

Para mim, ele se rebaixou e não se elevou.

Eis a pergunta que não se cala: se estamos do lado mais alto, porque não enxergamos o que está do outro lado? Uma resposta é muito simples: não enxergamos porque, ao invés de olhar para baixo, olhamos para cima e tudo o que vemos é um céu vazio e abstrato.

Essa idéia fez de mim um pensador notável do lado de cá da rua, mas o que será que pensam da minha idéia do lado de lá? Não tenho a intenção de pagar para ver.

Nesse momento, ele [o cara que atravessou a rua] deve estar olhando para baixo, acreditando que está acima de nós e rindo incontrolavelmente, pensando que está tão alto que não dá mais para ver o nosso lado e que, portanto, nós jamais poderemos alcançá-lo. Ele acredita piamente que se elevou diante de nós, e que a nossa vida aqui é inferior demais para o Novo Mundo que descobriu.

Mas quer saber? Prefiro ficar do lado de cá, sinto-me mais seguro aqui. Todos se sentem bem aqui. Ir para lá é loucura e aqui a lucidez é a palavra de ordem.

sábado, dezembro 04, 2010

Igual a uma Porta

Bati uma vez na porta. Esperei. Bati novamente. O silêncio era alto demais para eu poder escutar.

Aquela casa já não era mais a mesma. Lembro-me de como bebíamos e ríamos de nós mesmos, de nossas piadas e de nossas gafes, porém, não conseguíamos rir justamente do que nos era mais engraçado. E nem poderíamos, afinal.

Bato novamente na porta, aquela porta de madeira acompanhando o design rústico da casa. Antes só se parecia com uma porta velha, mas era uma porta nova; hoje, ela se parece uma porta nova, mas basta chegar perto para perceber que está caindo aos pedaços.

Éramos até felizes. Talvez porque a nossa ignorância nos permitia ser. Quando deixamos o que era próprio dos ignorantes, vimos que tudo seria diferente dali em diante, que o tempo não seria o nosso amigo e que o espaço nos comprimia mais e mais.

Hoje bato na porta. Mas não tem ninguém... ninguém!

Não há nada de especial por lá.

quarta-feira, julho 21, 2010

Dois Velhos e um Sarcasmo

O pôr do sol estava radiantemente belo.

Essa era a opinião de dois senhores idosos que conversavam. Entretanto, a paisagem – bela e rara – não era o tema da oportuna conversa em questão.

- Compadre, tu acreditas que estamos atrapalhando o nosso mundo?

- De onde você tirou tal tolice, meu caro compadre?

- Foi do veraz noticiário noturno rotineiro, da nossa querida macro-rede de televisão, que assisto diariamente excetuando-se aos domingos
.
- E o que esse brilhante fabricante de notícias fez para convencer você de que nós estamos atrapalhando o mundo? Afinal, quem são esse “nós”?

- Ora, o “nós” em questão somos justamente nós, os idosos! Ora duplo! O jornal da nossa nação não afirmou com todas as letras que somos o encosto social, mas eu que sou esperto – porque sou velho – compreendi subliminarmente a mensagem que o centro de informações remeteu a nós, os avelhantados aposentados da nação que batem papos infindáveis e perdem tempo vislumbrando o pôr do sol em bancos de praça.

- Certo, mas desembuche logo homem de Deus! Diga qual foi a mensagem e de onde ela veio.

- Pois então, quando o repórter fazia uma brilhantíssima reportagem sobre o rombo da Previdência Social, o mesmo não pôde deixar de inferir os problemas que os gastos com salários pagos pelo estado aos aposentados prejudicam o nosso promissor país, afinal, dinheiro que poderia ser destinado a outros setores da economia são desviados de seus cursos naturais para cobrirem o nosso sustento e, como o número de idosos aumenta a cada dia que passa, o rombo está cada vez maior. Vale lembrar que o dinheiro em questão surge dos impostos que os trabalhadores teriam mais dinheiro para gastar e movimentar o comércio, fortalecendo a nossa promissora economia.

- Concordar eu não concordo, contudo, quem sou eu para discordar de um jornal tão íntegro!?

- O fato é que, enquanto respiramos, outros trabalhadores sua ofegantes para alimentar nossa vadiagem!

- Não podemos permitir isso! Existem várias possibilidades, não vê compadre?

- Sinceramente eu não enxergo solução alguma.

- Duas: ou “nós”, os aposentados da nação, devolvemos todo o dinheiro que devemos aos humildes proletários e burgueses do nosso país, ou suicidamos coletivamente e poupamos futuros esforços por parte da juventude do presente.

- Veja! Isto é um recorde da época global, compadre!

segunda-feira, janeiro 18, 2010

Sonho na Calçada

Ando pelas várzeas, pelos becos e pelo espaço urbano; ando a vagar pelo asfalto e pelas praças; ando junto aos pombos e rente as baratas; ando pelas avenidas e pelas ruas de uma cidade suja. Eu sou a sujeira.

Quando olho para uma senhora que utiliza trajes de inverno tão belos, pergunto-me se ela não se incomoda em usar uma vestidura tão pesada. Pergunto-me se ela não sente o peso desses trajes no seu processo de fabricação, indago-me se ela não sente o peso de usar esses trajes onde tantos morrem de frio.

Ela entra na loja de roupas. A mesma loja que eu tentei entrar e fui banido. Por que será que ela compra tantas roupas se ela já tem o bastante? Tenho de me lembrar de roubar essa loja mais tarde, durante a madrugada, quando ela estiver fechada. Quero saber o que tanto ela procura lá dentro. Será que lá tem algo que me sirva? Creio que não.

Ela passa a uma distância não tão grande de mim; não cheguei a vê-la, pois eu estava de costas para que ela não visse o meu rosto. Sei que ela passou por mim graças ao seu cheiro e pelo barulho do seu salto batendo no chão. Ah! E como é refrescante o cheiro do seu perfume... e como é bela essa moça... Será que ela se casaria comigo? Também creio que não.

Agora tenho que voltar aos meus afazeres de morador de rua. Droga! Esse meu número de malabarismo no semáforo não está rendendo nada. Preciso pensar em algo novo, algo diferente. Será que as pessoas me darão dinheiro se eu tiver boas roupas e um bom perfume? Pela última vez: creio que não.

terça-feira, novembro 24, 2009

nem todos veem a sua vez chegar..

Duas coisas que aprendi a não acreditar nesse mundo são a Justica e a Igualdade.

As pessoas precisam parar de crer que o acaso age com justiça, pois não age e, se agisse, não poderia mais ser chamado de acaso; as pessoas precisam para de acreditar que Deus intervém na vida delas o tempo todo, pois isso não seria o melhor a ser feito por alguém que, teoricamente, é tão sabio.

Deus não é o acaso e o acaso não é Deus! Sejam bem-vindos ao caos!

sexta-feira, outubro 23, 2009

A Leve Crônica Sobre o Pensar em Nada

Penso que já morreram de rir aqueles que conseguiam enxergar mais do que os outros. Penso tanto e me sinto menos limitado por isso, mas, se pensasse mais, não me sentiria assim.

Sobre o que sei, não tenho certeza. Sobre o que desejo saber, apenas cogito. O que sei é muito quando comparado ao que eu sabia antes, mas é pouco comparado ao que irei saber e ridiculamente irrisório quando comparado ao que eu poderia saber se pudesse viver eternamente.

Quando os que estão acima de mim me reprimem, tenho vontade de lutar. Quando eles me enganam, eu não tenho essa vontade. Mas meu corpo pega fogo quando descubro que estou sendo enganado pelo poder.

Tenho que continuar pensando, mas não posso mais me limitar a somente pensar.


terça-feira, setembro 08, 2009

O Ego Alucinado

Estou tão desacordado em mim mesmo que posso ser o quiser. Posso viver os meus mais tênues sonhos de criança e viver os meus anseios da forma mais apaixonante possível. Quando estou assim é que finalmente consigo escrever; quando estou nesse estado enigmático de transe profundo e de profunda lucidez é que minha mente se dilata e consigo enxergar o mundo de uma forma não tão coerente e, assim, nada é impossível. Hoje, após tanto tempo me taxando com incontáveis podridões e com tantas bravatas sem um mínimo nexo é que reconheço que preciso de tais podridões para me manter ereto diante da vida; depois de me flagelar por diversas vezes é que me concentro nesse instante quando esqueço de mim mesmo, esqueço-me de tudo que sou, do que fiz e do que pretendo fazer para finalmente falar do meu tão sádico e torturante ego no clamor paradoxal da incongruência. Eis a minha síntese da minha própria loucura.

É assim que consigo viver casualmente entre tantos momentos de morte.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Sobre o Explícito

Quando andava pelas esquinas da vida eu jurava que você seria o meu guia, o meu ponto certo, a minha segurança, pura salvação; tudo o que eu mais queria era te encontrar, achei que apenas isso fosse necessário. Quando eu acreditava que a minha alma e a sua formariam a recíproca mais verdadeira do que se teve noticia, eu não imaginava o quanto eu poderia sofrer se tudo isso culminasse em inverdades. Hoje é bem veraz que eu finalmente te encontrei, é bem veraz que eu finalmente desvendei incontáveis enigmas que me acuavam, mas o mais lamentável foi saber que a única maneira de desvendar mistérios impossíveis é descobrindo que eles não existem e que jamais existiram, mas que foi tudo uma louca e insana forma de me manter feliz por alguns anos.

Que venha a tristeza agora, estou pronto para tentar me adaptar a ela.

blog criado em 23 de Julho de 2009

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