Dezessete de Outubro de 2003
Fatídica,
Completa hoje 20 anos de sua morte. Por isso, para celebrar essa data tão fantástica, fiz compras e versos. Deixemos os versos de lado e fiquemos com as compras.
Pela manhã, fiz questão de obter alguns produtos para a celebração de nossa festa, jantarei contigo, isso se tu aceitares, é claro. Comprei um bom vinho, talvez não o melhor – afinal, a minha renda não é tão ampla quanto à daquele que lhe assassinou –, além disso, fiz questão de providenciar um jantar que não fugisse mais de nossa memória, fui à busca de alguns ingredientes para poder preparar o nosso jantar, natural que demorei, mas a causa foi digna, pois, escargot, um bom sal grosso batido, 50 g de bacon e um bom tempero para incrementar não é coisa que se compre da noite para o dia. Fui à busca também de alguns aperitivos, algumas entradas e algumas outras surpresas culinárias que só lhe serão reveladas no momento em que forem servidas, e isso eu tenho certeza de que não será mudado, apesar de sua onisciência em minha vida.
Será um jantar diuturno, pois falaremos de muita coisa, todos os avelhantados assuntos passarão a ser novos, todas as mesmas mentiras poderão ser recontadas e, até mesmo, reinventadas. Podemos também falar de coisas novas – e nesses tempos atuais, as coisas novas são as que mais acontecem, tudo em grandiosa velocidade, as revoluções se interpõem e o insano predomina sobre o bom senso e o direito à vida. Ter a vossa presença em tal jantar será um refúgio de um velho que não se acostuma e nem acompanha mais o mundo caótico, mundo esse que faz um pobre escrivão aposentado sentir saudades do que era, e do que poderia ter sido se não tivesse lhe conhecido.
Se tu indagares sobre tamanha formalidade acerca de um evento que, à primeira vista seria tão banal, pois irei, na verdade, jantar só, eu respondo-lhe, e para isso, faço questão de umedecer mais a ponta da minha pena:
Se faço isso, é, pois, a última vez que o faço, que faço isso e que faço qualquer outra coisa, será o banquete do fim, o início do martírio, da minha rápida e injusta paixão e morte. Só peço que não chores; talvez um dia nos encontremos e possamos ser felizes, talvez algum dia você reconquiste o meu perdão, mas enquanto isso saboreie os meus versos, saboreie a minha amargura que saborearei a sua reciprocamente.
Saudações de quem rasteja no ócio da agonia.
Fatídica,
Completa hoje 20 anos de sua morte. Por isso, para celebrar essa data tão fantástica, fiz compras e versos. Deixemos os versos de lado e fiquemos com as compras.
Pela manhã, fiz questão de obter alguns produtos para a celebração de nossa festa, jantarei contigo, isso se tu aceitares, é claro. Comprei um bom vinho, talvez não o melhor – afinal, a minha renda não é tão ampla quanto à daquele que lhe assassinou –, além disso, fiz questão de providenciar um jantar que não fugisse mais de nossa memória, fui à busca de alguns ingredientes para poder preparar o nosso jantar, natural que demorei, mas a causa foi digna, pois, escargot, um bom sal grosso batido, 50 g de bacon e um bom tempero para incrementar não é coisa que se compre da noite para o dia. Fui à busca também de alguns aperitivos, algumas entradas e algumas outras surpresas culinárias que só lhe serão reveladas no momento em que forem servidas, e isso eu tenho certeza de que não será mudado, apesar de sua onisciência em minha vida.
Será um jantar diuturno, pois falaremos de muita coisa, todos os avelhantados assuntos passarão a ser novos, todas as mesmas mentiras poderão ser recontadas e, até mesmo, reinventadas. Podemos também falar de coisas novas – e nesses tempos atuais, as coisas novas são as que mais acontecem, tudo em grandiosa velocidade, as revoluções se interpõem e o insano predomina sobre o bom senso e o direito à vida. Ter a vossa presença em tal jantar será um refúgio de um velho que não se acostuma e nem acompanha mais o mundo caótico, mundo esse que faz um pobre escrivão aposentado sentir saudades do que era, e do que poderia ter sido se não tivesse lhe conhecido.
Se tu indagares sobre tamanha formalidade acerca de um evento que, à primeira vista seria tão banal, pois irei, na verdade, jantar só, eu respondo-lhe, e para isso, faço questão de umedecer mais a ponta da minha pena:
Se faço isso, é, pois, a última vez que o faço, que faço isso e que faço qualquer outra coisa, será o banquete do fim, o início do martírio, da minha rápida e injusta paixão e morte. Só peço que não chores; talvez um dia nos encontremos e possamos ser felizes, talvez algum dia você reconquiste o meu perdão, mas enquanto isso saboreie os meus versos, saboreie a minha amargura que saborearei a sua reciprocamente.
Saudações de quem rasteja no ócio da agonia.
Thurias Maldin
(Carta de Suicídio).
(Carta de Suicídio).