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terça-feira, março 02, 2010

Terceira Epístola a uma Meretriz Morta

Dezessete de Outubro de 2003

Fatídica,

Completa hoje 20 anos de sua morte. Por isso, para celebrar essa data tão fantástica, fiz compras e versos. Deixemos os versos de lado e fiquemos com as compras.

Pela manhã, fiz questão de obter alguns produtos para a celebração de nossa festa, jantarei contigo, isso se tu aceitares, é claro. Comprei um bom vinho, talvez não o melhor – afinal, a minha renda não é tão ampla quanto à daquele que lhe assassinou –, além disso, fiz questão de providenciar um jantar que não fugisse mais de nossa memória, fui à busca de alguns ingredientes para poder preparar o nosso jantar, natural que demorei, mas a causa foi digna, pois, escargot, um bom sal grosso batido, 50 g de bacon e um bom tempero para incrementar não é coisa que se compre da noite para o dia. Fui à busca também de alguns aperitivos, algumas entradas e algumas outras surpresas culinárias que só lhe serão reveladas no momento em que forem servidas, e isso eu tenho certeza de que não será mudado, apesar de sua onisciência em minha vida.

Será um jantar diuturno, pois falaremos de muita coisa, todos os avelhantados assuntos passarão a ser novos, todas as mesmas mentiras poderão ser recontadas e, até mesmo, reinventadas. Podemos também falar de coisas novas – e nesses tempos atuais, as coisas novas são as que mais acontecem, tudo em grandiosa velocidade, as revoluções se interpõem e o insano predomina sobre o bom senso e o direito à vida. Ter a vossa presença em tal jantar será um refúgio de um velho que não se acostuma e nem acompanha mais o mundo caótico, mundo esse que faz um pobre escrivão aposentado sentir saudades do que era, e do que poderia ter sido se não tivesse lhe conhecido.

Se tu indagares sobre tamanha formalidade acerca de um evento que, à primeira vista seria tão banal, pois irei, na verdade, jantar só, eu respondo-lhe, e para isso, faço questão de umedecer mais a ponta da minha pena:

Se faço isso, é, pois, a última vez que o faço, que faço isso e que faço qualquer outra coisa, será o banquete do fim, o início do martírio, da minha rápida e injusta paixão e morte. Só peço que não chores; talvez um dia nos encontremos e possamos ser felizes, talvez algum dia você reconquiste o meu perdão, mas enquanto isso saboreie os meus versos, saboreie a minha amargura que saborearei a sua reciprocamente.

Saudações de quem rasteja no ócio da agonia.

Thurias Maldin
(Carta de Suicídio).

quarta-feira, fevereiro 24, 2010

Segunda Epístola a Uma Meretriz Morta

Seis de Abril de 1996.

Fingida,

Já se passaram dois anos desde que partiste. Escrevo-lhe sim, mas esta, ao contrário do que possas pensar, não é a segunda vez que lhe escrevo, mas sim a segunda vez que lhe envio algumas palavras.

Não quero falar de mim, muito menos quero falar de nós, quero falar de você. Não passas de uma atriz, uma prostituta que tem, como todas as outras, o poder de fingir tão completamente que não há aquele ser pisante na terra não acredite em suas palavras, em seus gestos, sua vadia!

Afirmas, no mais eloqüente de todos os silêncios, que está morta, que sua carne e sua alma não mais aqui habitam, fala que seu corpo padece perante os vermes e que teu espírito vaga em outra dimensão, mas nós dois sabemos que isso não é verdade, sabemos que tu vives, talvez você viva mais intensamente do que antes, mais do que eu agora. Você vive em mim, em meus pensamentos, em meu semblante, em minhas orações, em minha solidão.

Tenho novidades: assassinei o maldito que lhe tirou a vida. Ora, não faça essa cara de espanto! Você sabe muito bem que tudo o que eu fiz, faço e farei é por ti. Fiz com ele tudo o que ele fizera contigo: enfiei uma faca em sua nuca de tal forma que a lâmina atravessara a laringe e a faringe, depois o abri e arranquei todas as suas vísceras lentamente, ejaculei na face dele e, em seguida, o desfigurei com a lâmina do meu punhal.

Oh não! Por que cometi tamanha tolice? Agora ele se encontra no inferno juntamente a ti. Sim, já consigo ver! Você está deitada e ele começa a despi-la e a usá-la. Não permita! Sua traidora! Jamais lhe perdoarei essa sua promiscuidade infinda.


Amaldiçoar-te-ei eternamente.

Thurias Maldin.

domingo, fevereiro 21, 2010

Primeira epístola a uma meretriz morta.

texto do meu antigo blog...

Três de maio de 1984.

Finada,

Porque fostes? Não compreendo em instância alguma, em menor ou maior grau, os motivos de sua abrupta partida.

Egoísmo! Egoísmo puro! Não há outra explicação. Pensei, meditei, analisei, refleti e não consegui alcançar elucidação alguma além desta. Apesar de entendê-la, não consigo compreendê-la, mórbida cortesã.

Lembro-me agora – uma semana após o seu falecimento, assim como me lembrarei daqui a dezenas de anos – de sua carne viva comunicando-se em meio a toques, cheiros e gostos do deleite da luxúria. Seus beijos, ah...seus doces beijos! Como eram voluptuosamente fascinantes em seus esplendores momentâneos; faziam-me delirar por segundos, minutos e, se nos fosse possível, por horas. Mas nossos beijos não apresentavam razão alguma para durarem por muito tempo, por mais prazerosos que fossem – ou talvez por esse motivo. A libido era tão impregnante, tão estimulada por eles, que a mesma não se continha em contatos meramente labiais, queríamos mais, sempre mais, sem jamais sermos vencidos pela exaustão.

O fato de sua ausência física não remonta a mim, mas tão somente a ti. Por mais que as causas de sua morte não lhe tenham sido voluntariosas, não acredito que morte alguma seja involuntária. Além de excêntrica, tu foste frágil e isto é peremptoriamente imperdoável. Mas, dia qualquer, conceder-lhe-ei, com muito esforço, a minha clemência. Afinal, ao contrario de ti, sou bom. Irei residir no paraíso, enquanto você reside no inferno. Bela ironia do destino: separar-nos até após a morte.

Thurias Maldin.

sábado, dezembro 05, 2009

Última Carta Informal de Despedida

Errônios amigos,

Talvez o único errônio nessa história seja eu. Em que momento se configura o limite entre o errônio e o errante? Talvez eu nunca saiba a diferença entre um e o outro, por mais dicionários que eu consulte.

Estou escrevendo essa carta pra dizer que desisti, pra dizer que não há forma alguma de escapar da dor, da agonia. Demorei, demorei anos para perceber que não existe outra dor que se compare, por mais que eu procure sentir a agonia que me faça esquecer essa que eu sinto, percebi que não existe. Percebi que não adianta eu tentar sonhar e tentar me fazer mais feliz ou mais triste e que, por mais que o destino não seja algo pré-definido e que caos é que m age, eu nunca conseguirei fazer as coisas conspirarem ao meu favor.

Nasci para vegetar, para não realizar os meus sonhos, para não conquistar os meus amores. Nasci pra isso, admito e por afirmo que regresso; afirmo que retorno e que, por esse motivo, essa carta será excepcionalmente entregue em mãos.

Peço apenas que me aceitem de volta.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Segunda Carta Informal de Despedida

Errônios Amigos,

Como vos afirmei anteriormente, ninguém jamais terá noção do rastro da minha existência. Portanto, peço-lhes que não encarem esse ensejo como um rastro, mas como um aviso.

Hoje ando pelo mundo a vagar, ando a sentir intensamente a dor no meu coração, algo tão insuportável quanto o clamor da agonia mais profunda.

Não há nada que se compare! Nem o frio das noites em que durmo na rua se comparam, nem a tristeza de olhar as madrugadas chuvosas sem conseguir dormir sem compara, nem a dor feridas que se espalham pelo meu corpo violentado pelos intrépidos marginais urbanos se comparam. Nada!

Quando vejo a chuva, percebo o quanto ela é heterogênea, o quanto ela pode ser romântica e agressiva: de uma garoa a uma violenta tempestade. Sinto que sou como a chuva, às vezes sou brisa, às vezes furacão; sou paciente às vezes e às vezes explodo em minha ira.

Mas o amor me torna constante. E a minha estabilidade é fria - e não calma - e a minha frieza é doce, cruel e sem piedade.

O meu amor me faz sofrer, o amor me destrói mais e mais a cada dia, acaba comigo aos poucos, ataca por dentro, apodrece-me. Talvez enfraqueça, porém sempre existirá.

Querem saber por que vago? Vago à procura de Deus e, quando o encontrar, teremos um longo monólogo.

Um horizonte sem esperança me espera. Despeço-me mais uma vez.

segunda-feira, novembro 30, 2009

Carta Informal de Despedida

Errônios Amigos,

Andando pela Lúxúria, ela tropeçou na inocência.

Como era santa aquela menina de corpo bonito e de tamanho exagerado, de cabelo longos e de roupas comportadas. Como era magnífico o explendor do seu andar, da sua forma de se mostrar ao mundo.

Como ela poderia ser tão ingênua, tão "certa"? Como ela poderia ser tão seguidora dos padrões sociais? Como ela, enquanto conhecedora do mal das religiões mais ortodoxas, segue-as tão rigorosamente? Como ela pode ser, ao mesmo tempo, crítica e praticante do velho estereótipo de mulher dona de casa? Como ela pode ser tão hipócrita, perceber que é e não admitir?

E como eu puder me apaixonar por ela? Alguém me diz? Não! Ninguém me diz.

Por isso, meus caros, escrevo-lhes esta que é a minha última carta, a carta de alguém que não possui nem coragem para cometer o suicídio e que por isso irá vagar sem eira e nem beira pelo tudo e pelo nada que o mundo tem para me oferecer. A minha agonia só está vivendo os seus primeiros anos de duração.

Despeço-me de vós hoje mesmo e garanto que ninguém terá noção do rastro da minha existência.


blog criado em 23 de Julho de 2009

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