terça-feira, dezembro 07, 2010

Três por Quatro

Ela estava sozinha naquela mesa de bar. Aquele elegante e fino bar na zona nobre da metrópole. Ela olhava a rua pelo vidro e observava os carros a cruzarem loucamente aquela avenida que não dormia nunca, olhava os postes, as luzes, o céu nublado. Era noite e ela simplesmente amava as noites nubladas, “espetáculo maior não há”, dizia consigo mesmo.

Aquele céu noturno lhe trazia lembranças, lembranças essas que ela não fazia a mínima questão de resgatar, por isso evitava olhar para cima, apesar de às vezes não conseguir resistir.

Eis que ele transcende porta adentro – tinha que ser justamente ele? – e se senta na cadeira do outro lado da mesa ao qual ela estava sentada. Constrói em sua face um semblante de confiança e tranqüilidade, evidenciados por um meio sorriso, aquele meio sorriso que ela tanto amava e tanto odiava; debruçou os ombros sobre a mesa, fitando-a

- Como me achou aqui? Estava a me seguir?

Ele fez um sinal com o dedo indicador diante da boca, pedindo para ela se calar, sem deixar, em momento algum, de olhar bem no fundo de seus olhos.

Um jogo de silêncio se fez. Uma música começou a tocar – tinha de ser justamente essa música?

Era aquela dos Engenheiros do Hawaii que eles tanto gostavam. Mas não mais na versão ao vivo que eles estavam acostumados a ouvir: rápida e animada. Era uma versão de estúdio, mais lenta, com um tom bem melancólico inspirado pelo suave som da gaita.

♪ “Diga a verdade ao menos uma vez na vida, você se apaixonou pelos meus erros” ♪

Foram quase trinta segundos de olhares entrecruzados, enquanto a música seguia. Algo semelhante a uma disputa, para ver quem desviava o olhar primeiro.

♪”E eu perdi as chaves, mas que cabeça a minha! Agora vai ter que ser para toda a vida” ♪

Ela perdeu o jogo bem nesse instante. Desviou o olhar, por um segundo: fraquejou! Ele parecia estar determinado, e realmente estava. Ela fraquejou novamente, pois no segundo seguinte voltou a fitá-lo. A música continuava.

♪ “Somos o que há de melhor, somos o que dá pra fazer” ♪

Ela mudou a expressão do rosto para um ar mais sério. Cansou de ficar na defensiva, resolveu partir para o ataque. Queria feri-lo. Mas aquela face de irônico que só ele sabia fazer tão bem mantinha-se intacta. Era incrível, o que aquele filha da mãe poderia conseguir com aquela expressão no rosto.

♪ “Se eu tivesse a força que você pensa que eu tenho, eu gravaria no metal da minha pele o teu desenho” ♪

Ela já não agüentava mais, estava cedendo. Chegou a hora, pessoal! E, naquele jogo de tentar resistir ou não, com aquela música infernal que nunca acabava, eis que finalmente o Márcio chega e toca a sua mão.

- Olá, amor. O que esse rapaz faz na mesa que reservei para o nosso encontro?

- Ah, esse é o Jorge, um amigo. Veio me cumprimentar e já estava indo embora.

Desde enquanto ela se encontrava com outros caras no bar que nós costumávamos ir?

Ele se despediu e se foi, enquanto a gaita em seu tom triste – e que agora lhe servia como o maior e melhor instrumento de tortura – encerrava a música e todo o restante que tocava junto com ela naquele maldito bar em início de noite.

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blog criado em 23 de Julho de 2009

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